, autor dos versos:
dottie parker não sou
pra sair pelaí rimando
amargores
trágica
dolores
punhos abertos brandidos
lantejoulas vidrilhos
costumes debruados de versinhos descarados
vermelho morto
vivo
não sou boquitas que formigam
maldizeres
sobrancelhas campadas em eterno
desdém
ennui max-factorizado
treva que se côa duma velha canção
de duke ellington
não
decididamente não sou treva
meus amores todos
os amores
decididamente
não sou treva
é preciso entender
minha licença
meu ano sabático
a baba malbaratada nas roletas do Eros
que tudo isso me descobre a falta de talento pro cinemascope
sou um kammerspiel
há que moderar-me
ter-me às proporções que me cabem
nada de grandezas inassimiláveis
sou três pessoas numa sala
serenamente
se desancando
amores todos
os amores
por gentileza
não me ultrapassem mais
Imagina que o seu cu fala. Nada de flatos, não seja nojento. Ele fala. Só que você sequer imagina isso. Você circula por aí com um anus que, embora encoberto por suas calças, cuecas, calcinhas ou seja lá quais forem suas preferências para esconder do mundo essa monstruosidade, ele tem um jeito próprio de ser, de existir através da muralha desses panos inúteis. É um cu sorrateiro, sotto voce, doppelgänger traseiro e atroz que faz de você um mero representante de sua monstruosidade.
Você dirige seu carro sentado sobre ele, que gosta de sentir o peso do seu corpo meio obeso achatando suas pregas. Neste instante ele vai só curtindo o som que emana do aparelho de MP3 no painel do carro: Chromeo, "Needy girl", acentua o balanço amistoso entre o cu e o banco do motorista. É um carro novo. Você é um cara criativo: ganha dinheiro pra caralho. Só precisa tomar cuidado com o seu rabo. Tem sempre alguém tentando puxar o tapete ou meter no seu rabo, não é? Deve ser.
O problema de ter um cu como o seu você vai descobrir agora. Porque eu sou seu amigo e decidi registrar o que der com uma mini-DV cuidadosamente instalada nas cercanias que serão ocupadas pelo seu rabo nesta reuniãozinha de amigos.
Você circula, beija o rosto todo mundo, homens e mulheres. Não sei quem tem mais medo de você, é difícil dizer. As pessoas aprendem a sorrir tão cedo que, depois dos vinte e poucos, fica difícil não fazê-lo. Finalmente você se aboleta no sofá certo, não sem um encorajamento de minha parte para que se sentassse exatamente ali, perto da câmera. O apartamento em Ipanema todo decorado com objetos trazidos da Malásia, Antuérpia, Niterói, de um vulcão em São João de Meriti. Você se sente à vontade. Não prescrutado. Não vigiado. Não... por que é que alguém ia querer ficar de olho em você? Nenhum motivo. Coma queijo.
Quando você move o tronco para a frente para espetar uma bolinha de mussarela de búfala, é aí que começa a ação. Seu cu está livre. Você se tornou seu cu. E não se deu conta disso. As pessoas tinham razão de estar de olho em você. Poderia ter sido impressão sua. Mas você não tem mais impressões sobre as coisas e as pessoas a sua volta. Seu cu comanda a ação. A sua ação. A sua fala. Ninguém chama a polícia, porque por algum motivo que ainda não arrefeceu, eles se importam com o resto do homem que não é o cu.
Mas tampouco falarão a você sobre tudo que seu cu fez na noite passada. Com medo de uma represália de merda.
Por isso lhe entrego este vídeo, em que você poderá se ver, entre outros feitos vergonhosos demais, atirando cinzeiros - isso mesmo, cinzeiros... não sei como puderam caber em espaço tão exígüo e dele voar e acertar a cabeça de uma mulher, que acabou por desmaiar. Ela nunca mais quererá ver atua cara nem mesmo teu cu. Era ela que flertava com você no começo da noite, antes da bolinha de mussarela de búfala. Seu imbecil.
Ao terminar de assistir a gravação, eu quero que você escreva quantas vezes couber, por todo o seu corpo: eu sou um cu.
A VOLTA
Noutro dia fiz um furo com brasa de cigarro no meu agasalho que comprei quando tinha 17 anos, e quis te contar. Foi bem em cima do coração. Livros comprados em sebo e livros velhos em geral, além dos cadernos, devem ter ao menos uma mancha de base de copo de vinho cada, e ocasionalmente um furo de brasa de cigarro. Eu e você devemos ao menos ter uma a outra, para o caso de uma hecatombe ainda pior do que o sumiço sistemático de todos os nossos amigos. Você queimou meu suéter, manchou meus livros e meus cadernos com coisas indizíveis e me ensinou a contar até dez antes de dizer a verdade a alguém que não reconheceria o que é certo mesmo que o certo saísse voando da própria bunda. Eu te amo, meus amores. Eu beijo quem disser o contrário, e cuspo fora o podre da fruta.
FOLHA DE S. PAULO
Menos Sarah Jessica e mais Dorothy Parker
CECILIA GIANNETTI
COLUNISTA DA FOLHA
“Sex & the City, O Filme” não traz nada palpitante ou muito diferente do que já foi visto em episódios de uma hora de duração; exceto que o longa-metragem é mais arrastado que a versão televisiva. Parece um episódio extra-longo da série, um sonho fashion com roteiro mais desnutrido que a protagonista, cuja última refeição de verdade deve ter ocorrido por volta de 1975. Começa com um recap pouco sutil, encadeando cenas do seriado com Carrie Bradshaw, Miranda Hobbs, Samantha Jones e Charlotte, “coladas” em páginas dos livros escritos por Carrie. E segue mantendo a mesma estrutura da TV, com as vidas das quatro costuradas por comentários trocadilhescos da protagonista (“Assim que Samantha conheceu Dante, ela desceu ao inferno”, etc.)
Para quem deseja apenas ver moda, está de bom tamanho: a originalidade do filme fica por conta do figurino; lá pela segunda metade da fita surge a NY Fashion Week; e o tamanho do closet que Mr. Big manda construir para as tralhas de grife da mulher é mais importante até que uma aliança cheia de diamantes. Fãs de carteirinha do seriado também não irão se importar muito com o plot diluído, pois irão ao cinema reencontrar velhas amigas; uma delas, inclusive, com idade para ser avó, mentalidade de adolescente e corpo de mulher de 30 que já fez dinheiro suficiente para ao menos tentar recuperar a silhueta que ostentava aos 19.
(Um parêntese para quem insiste em analisar o comportamento de mulheres usando “Sex & the City” como guia: este filme não é um retrato fidedigno do que se passa no universo feminino. Assim como não o foi o seriado de TV que deixou rica a loira Candance Bushnell, autora da coluna do NY Observer e do livro que deram origem à série.)
Os 4 anos longe das câmeras foram cruéis com as personagens, que envelheceram mal; no longa, parecem tão vivas quanto displays de papelão em uma locadora. Por outro lado, esteticamente, as atrizes estão em boa forma: continua surpreendendo o estado de conservação de Kim Catrall aos 52 anos, única coisa realmente notável aqui... se for efeito especial, merece prêmio (nível “Matrix”).
Defensores da série costumam bater o pé e afirmar que o maior objetivo do quarteto que não trota com sapatos de menos de 300 dólares não é prender um homem nos laços do matrimônio. Porém, aqui, o casamento de Carrie surge como o Santo Graal da trama, embora o fiasco da festa não suscite um fiapo de emoção – exceto para platéias que ainda conseguem rir espontaneamente em cenas como a do motorista indiano (paquistanês, árabe, turco... varia de filme pra filme) que balança a cabeça enquanto ouve uma conversa entre amigas desiludidas em seu táxi.
O casório, aliás, é oportunidade para que outro péssimo trocadilho seja disparado por uma das amigas, que assim se refere a Big: “A man who finally got Carried away”. Um homem que finalmente foi Carriegado.
Com essa turma, relacionamentos não vão por água abaixo: lava-se o desgosto bebendo vodca como se fosse água e leva-se as amigas para o México. As quatro não se casam, mas passam a lua-de-mel juntas com Carrie, entre discussões de relacionamento e desinterias. “Os homens maus te f..., os homens bons te f... e o resto não sabe f...”, concluem a certa altura. A quem busca um bom retrato da guerra dos sexos, fica a recomendação: menos Sarah Jessica e mais Dorothy Parker.
FOLHA DE S. PAULO
São Paulo, terça-feira, 03 de junho de 2008
CECILIA GIANNETTI
Eu sou o cão
Não convém me preocupar com o rumo que tomam as investigações em torno de assassinos, ladrões e políticos
FIZ UM TRATO COMIGO mesma, com prazo de validade até o último parágrafo desta crônica. Aqui, nesta esquina de jornal, ponho-me de quatro, uivo e esqueço parte da minha condição humana.
Dessa maneira, pouco me darei com as corrupções, tragédias e perdas irreversíveis relatadas nas demais seções, estendendo a sobranceria a minha vida pessoal. Afinal, para quê?, já vimos tudo isso antes, não passa de déjà-vu. Recebemos as más notícias, demos "forward" a familiares e conhecidos dos mais pavorosos acontecimentos por e-mail, desesperamo-nos e até fizemos o sinal da cruz quando um desabamento ocorreu bem perto de nosso prédio ou do caminho que usamos para chegar ao trabalho; pensamos: "Podia ter sido eu". E, diante de infinitas possibilidades de infortúnios, optamos por ignorá-las para viver.
É nesse espírito que deixo meu cão me levar para um passeio pela cidade. É nova para mim, ainda não construí nela uma rotina, desconheço suas curvas, parques e enseadas. Nela, posso escrever histórias para cada endereço que vejo pela primeira vez e recontar minha vida ao animal, da maneira que eu quiser. Como se sempre, por 32 anos, eu tivesse vivido aqui. É pra isso que nos mudamos, pela ilusão de sair do mesmo lugar a que fomos pregados, pelo prazer de morar outra vez numa folha em branco.
Conforme trotamos, eu e o animal, tornamo-nos mais parecidos. Não atento às cores das fachadas e nomes dos edifícios, desprezo lampejos de memória, as manchetinhas implacáveis pregadas numa banca de jornais -desagradáveis, incômodas manchetes, a noticiar o fim de tudo como conhecíamos; torturas, roubos, abusos, maldade em cada canto e em seu mais puro estado: injusta e impune. Um velho parado em frente à banca mexe a cabeça para a esquerda e para a direita repetidas vezes, um cigarro pendendo da boca finíssima, quase descarnada. Meu cão abana o rabo. Para ele, o jornal não passa de banheiro.
Às vezes, acordo querendo ser como o cão, sem passado e sem medo. Sua única memória, impressa no pêlo e nos músculos, é de ter sido bem-tratado. Seu nome, minha voz, são sempre prenúncio de felicidade. Na minha cidade nova, um cão despreocupado é meu dono, e a vista deitada nesse mirante nada me diz a respeito de quem eu fui, de que família vim, em qual casa da infância escondi meus pecados.
De repente, feito mágica, não me incomoda sequer o esporte nacional de apontar o dedo: a mania provinciana de acusar. São perfeitos todos os que acusam de qualquer coisa seus vizinhos, amigos, parentes; somente a perfeição pode respaldar quem acusa, ou não teriam a cara-de-pau de sempre acusar.
Percebo também que não tenho amigos de longa data -há todo o tempo do mundo para conversar com estranhos na rua. Diálogos sem bagagem nem conseqüência, vivendo um dia de cada vez, feito o meu cão, e todos os dias bem iguais. Repletos de não-memórias felizes.
Recém-chegada à cidade, lavada e nova, sem pulgas, sem coleira, abano com alegria o rabo deselegante para desconhecidos. Dou meu telefone, aceito apelidos e carícias das mãos que me percorrem a barriga, o peito, o lombo, mostro os dentes numa imitação de sorriso humano. Não me convém me preocupar com o rumo que tomam as investigações em torno de assassinos, ladrões e políticos. Leio o jornal feito o cão, como se os parágrafos formassem uma padronagem perfeita para a "toilette". Abano o rabo, eu sou o cão.
FOLHA DE S. PAULO
Felix culpa
"Outrora, se bem me lembro – eu me lembrava", ruminou para dentro de sua taça a amiga de colégio. "Então vambora", retruquei, na sala de estar onde uma motocicleta CB 400 comprada no Mercado Livre ("Vintage, tem freio traseiro a disco, problema é que a síndica não deixa pôr moto na garagem do prédio") ocupava boa parte do espaço entre a janela e o sofá. Sem piscar nem tossir: bastava arrumar a pequena mala. Pequena, sim: só se aprende a levar bem poucos sapatos, roupas, quase nenhuma buginganga de perfumaria, depois de se já ter penado algumas vezes arrastando peso inútil por estradas, rodoviárias e aeroportos. No mais, acolhidas na casa de um funcionário brasileiro da companhia para a qual a dona da moto trabalha, não me meto a levar muita tralha. E se for um bangalô mutcho loco e liliputiano? Melhor que a bagagem não ultrapasse minha altura desta vez.
No primeiro dia em Ha'Iku (Maui), por incrível que pareça – e mesmo para mim, que a esta altura conheço bastante bem o inacreditável, este parece sempre mais normal que para meus amigos – avisto na rua um conhecido do Brasil. Há tempos só o encontrava na janelinha do Facebook, onde, conjugados em acenos eletrônicos discretos, tentávamos não perder o fiapo de realidade que nos une. Aqui não nos reconhecemos de imediato: na vida real, hoje estou de óculos de grau, e ele, cujo rosto aparece meio coberto por verdadeiras lunetas, aqui fora, no mundo, passeia sem elas.
E as pessoas que conhecíamos, tantos anos? "Perderam seus contornos essenciais, são outra gente" – eu quis julgar, mas aí achei que não devia me meter nesse papo roto no avião. Hoje são coisa diferente da confusão da juventude, o resto passou e foi. Agora fica o jet lag. Deve ser o vôo, a insônia, o sair por aí sem avisar. Como se tivesse entrado outra vez, para novo passeio, deslocado no tempo, no fusca roubado ao fim do último ano do ginásio. Espero Não há fusca nesta parte da ilha; às vezes olho pela varanda do hotel e tenho certeza de que jamais cuircularam carros por esta faixa de terra. E tudo é quase igual ao que se vê lá em casa, no bairro onde vivo; exceto pela poesia nostálgica que imprimimos à descrição dos recantos que, sabemos, só iremos visitar uma ou duas vezes na vida. E a luz de um poste que não consegue se decidir entre ficar acesa-amarelada e apagar-se totalmente, os pássaros que miram bondosos somente nos toldos do restaurante lá embaixo, mas acabam fazendo de banheiro um homem grisalho só e seu copo de vinho, à area descoberta. Ilesos por questão de segundos, um trio de americanos e sua pele translúcida passa pela mesa do velho sem notar o que o distingue dos outros homens que bebem na varanda, nesta pequena calçada particular, em que a única coisa que acontece, exceto o desastre do pombo, é um jogo de futebol local na TV. Toda a ilha boceja docemente, entregue à preguiça e à bebida. O falatório acelerado do locutor que narra a partida a todo momento leva a crer que um dos times está prestes a cometer um gol implacável; mas o locutor mente, imprime emoção onde ela não existe no jogo morto. O poste torto neste eterno apaga-e-acende, o futebol no zero a zero. Se quisessem saber "por que uma viagem tão sem propósito?", eu ia dizer que se trata de um erro brilhante: colocamos países entre nós para justificar nosso silêncio. Felix culpa.
Então você me ama e quer que eu pare de fumar. Não consigo me deter na palavra "ama", ou amor, ou amável, amabilidades. Só penso onde diabos escondeu meu isqueiro. Os cigarros estão aqui. Comprei ontem à noite, ao desviar do caminho da academia. Não se pode pular com cólicas. Mas se pode fumar. Outros isqueiros estão perdidos pela casa, atrás de móveis centenários, da máquina de costura de sua avó, dos berços de animais semi-mortos que você traz para casa, com a desculpa de ampará-los e alimentá-los, mas só até que estejam inteiramente saudáveis. Acabam ficando, como eu fiquei. Curada de quase tudo exceto dessa vontade incontrolável de fumar e fumar e fumar. Ao menos de acender o cigarro e detê-lo entre os dedos e puxar e soprar a fumaça, pronto que desta vez não vou inalar.
Meu cinzeiro, também? Onde foi parar?
Vai esconder as chaves do meu carro também. E a chave da porta.
Dai-me paciência, eu só queria um cigarrinho.

SONETO PARA SAWYER E OS AMIGOS QUE PULARAM DO HELICÓPTERO QUANDO SAÍ DE MIM
Deus abençoe a sinceridade.
A jukebox do Village Voice.
O Village Voice soltando tinta em meus dedos.
Uma calçada da 23 com a Lexington. O Bowery. E Kreuzberg. São Paulo, aqui.
Um labrador que espera o fim do dia de trabalho de seu dono em frente à mesa da recepcionista num edifício preto e espelhado.
Um muito aguardado e-mail sobre o que fazer com o sonho de escrever e com o medo de morrer sozinho.
Minha boçal predisposição a jamais não gostar imediatamente de alguém. "Mas ele tentou te matar!". Tenho certeza de que tinha um bom motivo para isso.
Os ursos que nos abraçam e nos devoram, pra cuspir a carcaça fora no rio.
A única maneira de saber quem é quem (cochicho ininteligível, close da minha boca em sua orelha antes que eu pule do helicóptero: "Tenho uma filha no Alabama, cuide bem dela... e, ah: a única maneira de saber quem importa é ver como reagem ao seu desmoronamento.").

LACÔNICA
No onesentence.org.
AMO TUDO QUE TENHO, FUJO DE TUDO QUE AMO
Tenho muitos nomes, feito os gatos do poeta. Atendo até pelo nome que é o teu. Não existe poesia alguma nisso, a identidade trocada nos liberta até do lirismo. Ele é recuperado num prato de salada enfeitado com tomates cereja, que você detesta. Os vegetais ganham uma quadrinha rimada, eu ganho um novo apelido. Coala, vulgo Labareda, te queimo e consumo os beiços. "Preocupo-me com a sua saúde". A maneira mais bela de dizer que alguém não passa de um caso clínico. Mando cartão e flores, estimo suas melhoras, eu, Coala Labareda, amo-te hoje com mais força do que jamais imaginei ser possível, e não me desfaço desse sentimento nem quando você passa de braços dados com sua septuagésima esposa, uma dúbia, uma sem-vergonha. Eu, pura feito a salada, você não come. Prefere as coisas que te matam. E o que não te mata, te engorda - aumenta pros lados sua beleza. Lambo o azeite da tua barriga - você engordou, meu amor; você não morreu -, atendo o celular de boca cheia: "Meu número mudou (agora me acalmo pois criei algo que justifica o seu não-ligar)". Desprezo quem telefona pois não sabe usar a telepatia. Não me aparece em sonhos, não me convida para sonhar. Eu, Coala Espada, me desfaço do antigo desejo de ser querida a ponto de poder ter defeitos. Sua mulher, vulgar e malvada, aplaude de pé sobre os saltos de sandalinha vintage, então me acusa de ser uma ferida em você. O que não é verdade. Sou incapaz de fazer seu joelho verter pus.
Já tive medo dos olhos lilases da sua mulher, Hoje, nem tanto. Imagino-a nua e me vem imensa paz, sem roupas seus olhos baixam imediatamente aos pés, ela procura os sapatos vintage, é a única coisa que importa. Se está calçada, Não está morta. Apenas envergonhada e com medo dos meus quatro olhos.
Faço de tudo para desaparecer antes que não me enxerguem mais.

NOTÍCIAS DO PLANETA DOS OUTROS
Me encontraram assim, à beira da cama, os olhos estrelados.
Que foi que lhe disseram?, perguntou primeiro, a boca cheia de pasta de dente. Contei-lhe o que ouvi no sonho. Ele cuspiu na pia a espuma branca, e disse Sonho interessante.
Nós dois estávamos nele, respondi.
Notável. Pensava mesmo em você nesta manhã.
Nunca mais vi no meu sono nem A nem B. Isso quer dizer apenas uma coisa.
O quê?
Sonhamos bastante com aqueles que pensam insistentemente em nós. Sonhos recorrentes, enquanto ainda habitamos a esquina da cabeça de alguém. Quando não vêm mais em sonho, espreitar nossa inconsciência, podemos esquecê-los, porque certamente já se esqueceram de nós.
Já experimentou dormir à noite em vez de perder os dias desacordada?
Não se trata de apenas inverter o fuso. A e B não me conhecem mais. Se nos cruzássemos na rua, não saberiam quem eu sou.
Você poderia se apresentar novamente.
Tenho medo de não ser sequer vista.
É um medo infantil.
(Nunca deixamos de tê-los.) Logo no começo eu ainda sonhei uma vez com B, que me disse isto: "Brincadeira". Fiquei aliviada até o momento de acordar, e aí tomei café e me lembrei de que não brincamos mais.
E quanto à A?
Não passa de uma letra do alfabeto, a primeira que aprendi. Mas B ainda está por perto. Falo seu nome na fila do supermercado, durante as aulas de alemão, cochicho no cinema ao estranho sentado à minha esquerda e cochicho ao estranho que passa a mão sobre minhas pernas sentado à direita, telefono para sua mãe e fico muda, apenas ouço o Alô na voz tão parecida, peço a sua comida preferida, uso suas cores, imito seu jeito de dirigir com um braço fumando pra fora do carro, e até troco o dia pela noite para ser mais como B.
E é por tudo isso que B ainda sonha contigo.