Segunda-feira, Julho 07, 2008

FLIP

Entrevista sensa com Pepetela e mais as fofocadas da Festa Literária Internacional de Paraty no Portal LIteral. Ane Aguirre tá com textos jornalístico-literários na medida certa e o fotógrafo Sérgio Fonseca, arrebentando com a câmera. Sem saca. Vale a pena ler.

Uma fofoquinha só? Manja a Chimamanda? Belíssima, ótima escritora. Surtou quando viu o banheiro destinado aos autores. Falou que ali num fazia não. Ane ficou de apresentá-la à nossa Rainha do Xixi de Pé, a Ivete Sangalo, que fazia propaganda daquele cone de se colocar lá na chimamanda e ir se aliviando atrás do trio elétrico.


escrito às 3:36 PM por giannetti




Domingo, Julho 06, 2008

CUENCA NO BABELIA

É, artigo do amigo João, que por ora vaga mundo, saiu no "Babelia" do jornal espanhol El País. O Babelia é um dos suplementos literários mais importantes do mundo, e não lembro quando outro brasileiro assinou um artigo lá... Parabéns, João. (E volta logo pra casa).


escrito às 5:27 PM por giannetti




Quarta-feira, Julho 02, 2008

FOLHA DE S. PAULO

Minha coluna de ontem na Folha comenta a SPFW e a Quartas Intenções, festa na sauna produzida por Silvia Paz:

Um padrão de beleza menos famélico não faria das modelos cabides menos eficazes para as criações das grifes

CECILIA GIANNETTI

ESTA COLUNA VAI para as meninas que fazem pequenos cortes com gilete nas coxas que consideram grossas demais; para as mulheres que entram na faca em lipoesculturas arriscadas e desnecessárias. E para a gente incapaz de estabelecer mentalmente a diferença entre uma modelo bem paga que desfila no São Paulo Fashion Week e a estudante que desfila em festinhas de faculdade.

O assunto predominante na última SPFW foi a "obesidade" da modelo tcheca Karolina Kurkova. Como diria meu avô, eu já estava p**** dentro da roupa para escrever sobre isso. Passou-se uma semana desde o acontecido, mas nunca é tarde para se comentar asneiras daquele naipe.

No sábado, dia 21, o stylist Paulo Martinez afirmou aos jornais: "Achei ela obesa, foi um erro trazê-la", referindo-se à top Karolina.

Concordamos que modelos internacionais que recebam cachês estratosféricos para desfilar de biquíni devem vir secas -como pede o padrão da moda. Porém, a obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma doença grave. Chamar de obesa Karolina Kurkova é um exagero irresponsável de quem se esqueceu de que existe um mundo fora daquele dos desfiles.

Irresponsável porque atinge de maneira negativa meninas que podem morrer em função de distúrbios alimentares -e mulheres comuns que morrem por dentro por se acharem inadequadas até para arranjar um parceiro, sair na rua ou, simplesmente, comprar um vestido. A modelo jamais deveria ter aceitado uma grana preta para exibir a bunda onde celulites haviam teimado em aparecer. Mas chamá-la de "obesa" mexe com mulheres que vivem fora desse universo onde é comum uma adulta vestir 32.

Gente comum que não está doentiamente acima do peso -só fora do que a Stasi do binômio moda-mídia demanda- entra em parafuso com tamanhas exigências. Um padrão de beleza menos famélico não faria das moças que desfilam profissionalmente cabides menos eficazes para as criações das grifes. E tornaria menos infelizes mulheres que sofrem por não se encaixar -em roupas e no padrão de beleza.

A regra do raquitismo ultrapassa o ambiente onde a moda é produzida, entra sem cerimônia no nosso dia-a-dia, sem que a gente o peça. E mexe com a cabeça de muita gente boa.

A modelo tcheca foi apedrejada com adjetivos equivocados por ter ultrapassado os, sei lá, 45 quilos considerados normais para pessoas de 1,90 m de altura. Tal incongruência invade uma realidade na qual isso não deveria existir como um padrão comparativo. Chamar de "obesa" aquela mulher gostosa é como dar uma instrução à população feminina: "Alimentem-se exclusivamente de alface, comprimidos de Desobesi e água". Graças à inanição dessa dieta estúpida, em breve você perderá muitos quilos, saúde e a capacidade de fazer sinapses. Viva!

Na mesma semana do Kurkova Gate fui cobrir a "Quartas Intenções", promovida por Silvia Paz -primeira festa exclusivamente para mulheres em uma sauna gay no Rio de Janeiro. Fêmeas de todos os tamanhos e formas circulavam de toalha ou biquíni. As menos tímidas, seminuas. A ala masculina da Stasi da SPFW teria ficado roxa de ódio com a diversidade vista por lá; não havia dedos acusatórios: "Celulites! Obesa!". Fato: neste caso, mulher gosta muito mais de mulher do que alguns homens poderão jamais apreciá-las. Porque, como diria a fofa Bridget Jones, é preciso gostar "do jeitinho que ela é".


escrito às 8:26 AM por giannetti




Terça-feira, Junho 24, 2008

REDASSAUMS PERIGOSAS

Eu sei o quanto pode ser opressiva a vida dentro de uma redação de jornal. O mundo lá fora parece não existir e tudo que vive e respira só o faz no intervalo pro café ou quando todos saem em caravana no fim do dia pra beber até cair.

Eu sei também que estou fazendo uma generalização. E que é bem próxima de uma realidade muito ampla em diferentes jornais que tive a felicidade de conhecer por dentro.

Negócio é que tô escrevendo um livro que tem uma personagem que tem uma boca imunda, é agressiva quando é mal-compreendida e, como qualquer ator global descolado, eu faço oficina pra ver como ela funcionaria numa série de situações. Ela é promoter de uma boate voltada para casais same-sex.

Aí o celular dessa personagem toca aqui no Rio de Janeiro, onde passa férias, e deixam uma mensagem, que traduzo pra ela: "Oi, aqui é fulana de tal e estou fazendo uma matéria sobre noites gays femininas cariocas, gostaria de falar com você."

A resposta de Bree, meu objeto de investigação, sai num português perfeitamente grosso: "E desde quando eu virei o Chico Recarey da Buceta nesta cidade? Não haverá nessa redação de jornal algo mais que se possa fazer, um café a ser passado, por exemplo?"

***

Ela pode ficar bem agressiva, especialmente porque não é o Chico Recarey da Buceta e porque eu sou uma escritora perseguindo as aventuras dela na noite para montar um livro de ficção que será o contrário de tudo que ela me contar - ou seja, a verdade.

Portanto, peço encarecidamente que não liguem pro celular da Bree para falar de outra coisa que não seja do seu papel no meu livro.

Att

Cecilia Giannetti


escrito às 2:33 PM por giannetti




Quarta-feira, Junho 18, 2008



Náufragos se cansam de abanar os braços pro alto na esperança de que um pescador veja qualquer coisa de seu apelo desajeitado em meio às ondas. Mas esses pescadores estão logo ali! Posso vê-los batendo punheta e mirando o mar enquanto a vara aguarda a janta. Que filhos-das-putas!.

Aí os náufragos começam a poupar o esforço da abanação pro alto, que se provara infrutífero, e concentram-se em nadar na direção de qualquer outra pedra menos dura que os pescadores distraídos. Uma ilhota, um quiosque da Skol, um saveiro cheio de turistas.

Os pescadores distraídos poderiam ter salvo um milionário, um rei dentre os náufragos, que lhes daria uma recompensa vultosa. Ou uma puta gata ninfomaníaca. Podiam nada ter ganho. Só que o problema desses pescadores não era exatamente Distúrbio de Défcit de Atenção. É que eram sacanas mesmo. Viraram-se para o outro lado e fingiram não ver os apelos dos braços que se agitavam na água. Esses pescadores, em especial, têm a cabeça fria como a dos peixes que colhem em alto mar - salvo-te a vida, não te salvo a vida... que ganho com isso? Peso morto em meu barco? -, e na realidade não muito bons em negociar - não têm MBA. Apesar disso, feito acontece pela vida afora, eles não têm amigos; têm sócios. E só teriam resgatado lá a turma que abanava-se toda na água se houvesse garantia de lucro. Coisa que não se podia enxergar em meio às roupas molhadas dos náufragos.

Que foi? Tá esperando final de Esopo? Só mais tarde, que agora o sonífero me apanhou no colo. E ele tem os braços delicados de um caso secreto que eu nunca pensei ver de novo, um amigo de infância tarado.

escrito às 8:45 AM por giannetti




DOTTIE

puema enviado a mim pelo amigo/, autor dos versos:

dottie parker não sou

pra sair pelaí rimando

amargores


trágica

dolores

punhos abertos brandidos

lantejoulas vidrilhos

costumes debruados de versinhos descarados


vermelho morto

vivo


não sou boquitas que formigam

maldizeres

sobrancelhas campadas em eterno

desdém

ennui max-factorizado

treva que se côa duma velha canção

de duke ellington


não

decididamente não sou treva


meus amores todos

os amores

decididamente

não sou treva


é preciso entender

minha licença

meu ano sabático

a baba malbaratada nas roletas do Eros

que tudo isso me descobre a falta de talento pro cinemascope


sou um kammerspiel


há que moderar-me

ter-me às proporções que me cabem

nada de grandezas inassimiláveis

sou três pessoas numa sala

serenamente

se desancando


amores todos

os amores

por gentileza

não me ultrapassem mais





Sexta-feira, Junho 13, 2008

Imagina que o seu cu fala. Nada de flatos, não seja nojento. Ele fala. Só que você sequer imagina isso. Você circula por aí com um anus que, embora encoberto por suas calças, cuecas, calcinhas ou seja lá quais forem suas preferências para esconder do mundo essa monstruosidade, ele tem um jeito próprio de ser, de existir através da muralha desses panos inúteis. É um cu sorrateiro, sotto voce, doppelgänger traseiro e atroz que faz de você um mero representante de sua monstruosidade.

Você dirige seu carro sentado sobre ele, que gosta de sentir o peso do seu corpo meio obeso achatando suas pregas. Neste instante ele vai só curtindo o som que emana do aparelho de MP3 no painel do carro: Chromeo, "Needy girl", acentua o balanço amistoso entre o cu e o banco do motorista. É um carro novo. Você é um cara criativo: ganha dinheiro pra caralho. Só precisa tomar cuidado com o seu rabo. Tem sempre alguém tentando puxar o tapete ou meter no seu rabo, não é? Deve ser.

O problema de ter um cu como o seu você vai descobrir agora. Porque eu sou seu amigo e decidi registrar o que der com uma mini-DV cuidadosamente instalada nas cercanias que serão ocupadas pelo seu rabo nesta reuniãozinha de amigos.

Você circula, beija o rosto todo mundo, homens e mulheres. Não sei quem tem mais medo de você, é difícil dizer. As pessoas aprendem a sorrir tão cedo que, depois dos vinte e poucos, fica difícil não fazê-lo. Finalmente você se aboleta no sofá certo, não sem um encorajamento de minha parte para que se sentassse exatamente ali, perto da câmera. O apartamento em Ipanema todo decorado com objetos trazidos da Malásia, Antuérpia, Niterói, de um vulcão em São João de Meriti. Você se sente à vontade. Não prescrutado. Não vigiado. Não... por que é que alguém ia querer ficar de olho em você? Nenhum motivo. Coma queijo.

Quando você move o tronco para a frente para espetar uma bolinha de mussarela de búfala, é aí que começa a ação. Seu cu está livre. Você se tornou seu cu. E não se deu conta disso. As pessoas tinham razão de estar de olho em você. Poderia ter sido impressão sua. Mas você não tem mais impressões sobre as coisas e as pessoas a sua volta. Seu cu comanda a ação. A sua ação. A sua fala. Ninguém chama a polícia, porque por algum motivo que ainda não arrefeceu, eles se importam com o resto do homem que não é o cu.

Mas tampouco falarão a você sobre tudo que seu cu fez na noite passada. Com medo de uma represália de merda.

Por isso lhe entrego este vídeo, em que você poderá se ver, entre outros feitos vergonhosos demais, atirando cinzeiros - isso mesmo, cinzeiros... não sei como puderam caber em espaço tão exígüo e dele voar e acertar a cabeça de uma mulher, que acabou por desmaiar. Ela nunca mais quererá ver atua cara nem mesmo teu cu. Era ela que flertava com você no começo da noite, antes da bolinha de mussarela de búfala. Seu imbecil.

Ao terminar de assistir a gravação, eu quero que você escreva quantas vezes couber, por todo o seu corpo: eu sou um cu.


escrito às 11:31 PM por giannetti




Terça-feira, Junho 10, 2008

A VOLTA

Noutro dia fiz um furo com brasa de cigarro no meu agasalho que comprei quando tinha 17 anos, e quis te contar. Foi bem em cima do coração. Livros comprados em sebo e livros velhos em geral, além dos cadernos, devem ter ao menos uma mancha de base de copo de vinho cada, e ocasionalmente um furo de brasa de cigarro. Eu e você devemos ao menos ter uma a outra, para o caso de uma hecatombe ainda pior do que o sumiço sistemático de todos os nossos amigos. Você queimou meu suéter, manchou meus livros e meus cadernos com coisas indizíveis e me ensinou a contar até dez antes de dizer a verdade a alguém que não reconheceria o que é certo mesmo que o certo saísse voando da própria bunda. Eu te amo, meus amores. Eu beijo quem disser o contrário, e cuspo fora o podre da fruta.


escrito às 3:30 PM por giannetti




Sexta-feira, Junho 06, 2008

FOLHA DE S. PAULO

Menos Sarah Jessica e mais Dorothy Parker

CECILIA GIANNETTI
COLUNISTA DA FOLHA

“Sex & the City, O Filme” não traz nada palpitante ou muito diferente do que já foi visto em episódios de uma hora de duração; exceto que o longa-metragem é mais arrastado que a versão televisiva. Parece um episódio extra-longo da série, um sonho fashion com roteiro mais desnutrido que a protagonista, cuja última refeição de verdade deve ter ocorrido por volta de 1975. Começa com um recap pouco sutil, encadeando cenas do seriado com Carrie Bradshaw, Miranda Hobbs, Samantha Jones e Charlotte, “coladas” em páginas dos livros escritos por Carrie. E segue mantendo a mesma estrutura da TV, com as vidas das quatro costuradas por comentários trocadilhescos da protagonista (“Assim que Samantha conheceu Dante, ela desceu ao inferno”, etc.)

Para quem deseja apenas ver moda, está de bom tamanho: a originalidade do filme fica por conta do figurino; lá pela segunda metade da fita surge a NY Fashion Week; e o tamanho do closet que Mr. Big manda construir para as tralhas de grife da mulher é mais importante até que uma aliança cheia de diamantes. Fãs de carteirinha do seriado também não irão se importar muito com o plot diluído, pois irão ao cinema reencontrar velhas amigas; uma delas, inclusive, com idade para ser avó, mentalidade de adolescente e corpo de mulher de 30 que já fez dinheiro suficiente para ao menos tentar recuperar a silhueta que ostentava aos 19.

(Um parêntese para quem insiste em analisar o comportamento de mulheres usando “Sex & the City” como guia: este filme não é um retrato fidedigno do que se passa no universo feminino. Assim como não o foi o seriado de TV que deixou rica a loira Candance Bushnell, autora da coluna do NY Observer e do livro que deram origem à série.)

Os 4 anos longe das câmeras foram cruéis com as personagens, que envelheceram mal; no longa, parecem tão vivas quanto displays de papelão em uma locadora. Por outro lado, esteticamente, as atrizes estão em boa forma: continua surpreendendo o estado de conservação de Kim Catrall aos 52 anos, única coisa realmente notável aqui... se for efeito especial, merece prêmio (nível “Matrix”).

Defensores da série costumam bater o pé e afirmar que o maior objetivo do quarteto que não trota com sapatos de menos de 300 dólares não é prender um homem nos laços do matrimônio. Porém, aqui, o casamento de Carrie surge como o Santo Graal da trama, embora o fiasco da festa não suscite um fiapo de emoção – exceto para platéias que ainda conseguem rir espontaneamente em cenas como a do motorista indiano (paquistanês, árabe, turco... varia de filme pra filme) que balança a cabeça enquanto ouve uma conversa entre amigas desiludidas em seu táxi.

O casório, aliás, é oportunidade para que outro péssimo trocadilho seja disparado por uma das amigas, que assim se refere a Big: “A man who finally got Carried away”. Um homem que finalmente foi Carriegado.

Com essa turma, relacionamentos não vão por água abaixo: lava-se o desgosto bebendo vodca como se fosse água e leva-se as amigas para o México. As quatro não se casam, mas passam a lua-de-mel juntas com Carrie, entre discussões de relacionamento e desinterias. “Os homens maus te f..., os homens bons te f... e o resto não sabe f...”, concluem a certa altura. A quem busca um bom retrato da guerra dos sexos, fica a recomendação: menos Sarah Jessica e mais Dorothy Parker.

escrito às 7:46 PM por giannetti




FOLHA DE S. PAULO

São Paulo, terça-feira, 03 de junho de 2008

CECILIA GIANNETTI

Eu sou o cão

Não convém me preocupar com o rumo que tomam as investigações em torno de assassinos, ladrões e políticos

FIZ UM TRATO COMIGO mesma, com prazo de validade até o último parágrafo desta crônica. Aqui, nesta esquina de jornal, ponho-me de quatro, uivo e esqueço parte da minha condição humana.

Dessa maneira, pouco me darei com as corrupções, tragédias e perdas irreversíveis relatadas nas demais seções, estendendo a sobranceria a minha vida pessoal. Afinal, para quê?, já vimos tudo isso antes, não passa de déjà-vu. Recebemos as más notícias, demos "forward" a familiares e conhecidos dos mais pavorosos acontecimentos por e-mail, desesperamo-nos e até fizemos o sinal da cruz quando um desabamento ocorreu bem perto de nosso prédio ou do caminho que usamos para chegar ao trabalho; pensamos: "Podia ter sido eu". E, diante de infinitas possibilidades de infortúnios, optamos por ignorá-las para viver.

É nesse espírito que deixo meu cão me levar para um passeio pela cidade. É nova para mim, ainda não construí nela uma rotina, desconheço suas curvas, parques e enseadas. Nela, posso escrever histórias para cada endereço que vejo pela primeira vez e recontar minha vida ao animal, da maneira que eu quiser. Como se sempre, por 32 anos, eu tivesse vivido aqui. É pra isso que nos mudamos, pela ilusão de sair do mesmo lugar a que fomos pregados, pelo prazer de morar outra vez numa folha em branco.

Conforme trotamos, eu e o animal, tornamo-nos mais parecidos. Não atento às cores das fachadas e nomes dos edifícios, desprezo lampejos de memória, as manchetinhas implacáveis pregadas numa banca de jornais -desagradáveis, incômodas manchetes, a noticiar o fim de tudo como conhecíamos; torturas, roubos, abusos, maldade em cada canto e em seu mais puro estado: injusta e impune. Um velho parado em frente à banca mexe a cabeça para a esquerda e para a direita repetidas vezes, um cigarro pendendo da boca finíssima, quase descarnada. Meu cão abana o rabo. Para ele, o jornal não passa de banheiro.

Às vezes, acordo querendo ser como o cão, sem passado e sem medo. Sua única memória, impressa no pêlo e nos músculos, é de ter sido bem-tratado. Seu nome, minha voz, são sempre prenúncio de felicidade. Na minha cidade nova, um cão despreocupado é meu dono, e a vista deitada nesse mirante nada me diz a respeito de quem eu fui, de que família vim, em qual casa da infância escondi meus pecados.

De repente, feito mágica, não me incomoda sequer o esporte nacional de apontar o dedo: a mania provinciana de acusar. São perfeitos todos os que acusam de qualquer coisa seus vizinhos, amigos, parentes; somente a perfeição pode respaldar quem acusa, ou não teriam a cara-de-pau de sempre acusar.

Percebo também que não tenho amigos de longa data -há todo o tempo do mundo para conversar com estranhos na rua. Diálogos sem bagagem nem conseqüência, vivendo um dia de cada vez, feito o meu cão, e todos os dias bem iguais. Repletos de não-memórias felizes.

Recém-chegada à cidade, lavada e nova, sem pulgas, sem coleira, abano com alegria o rabo deselegante para desconhecidos. Dou meu telefone, aceito apelidos e carícias das mãos que me percorrem a barriga, o peito, o lombo, mostro os dentes numa imitação de sorriso humano. Não me convém me preocupar com o rumo que tomam as investigações em torno de assassinos, ladrões e políticos. Leio o jornal feito o cão, como se os parágrafos formassem uma padronagem perfeita para a "toilette". Abano o rabo, eu sou o cão.


escrito às 7:37 PM por giannetti